domingo, 17 de novembro de 2013

QUANDO A RELIGIÃO OBLITERA A VISÃO

Ética e dogma

Nas discussões acadêmicas e extra-acadêmicas referentes à bioética, vemos uma forte participação da Igreja nas tomadas de decisão, afinal, 74% dos brasileiros são católicos nominais, embora em grande parte não praticantes ou praticantes de outras religiões.
 
Mas os números não são importantes, o importante é que o Brasil é considerado um país católico e, embora haja separação entre o Estado e a Igreja, a Igreja ainda exerce forte influência.
Seja uma discussão sobre eutanásia, aborto, uso de células-tronco… lá estão representantes da Igreja emitindo opiniões dogmáticas, agora sob o nome de “ética”. Ora, a ética não tem nenhuma relação com dogmas e esse conceito deve ser rejeitado.

A ética é racional, fundamentada e frequentemente contrária aos dogmas da Igreja.
Vejam-se os casos de pedofilia que envolvem a Igreja. Por uma questão irracional e provavelmente dogmática, padres pedófilos não são submetidos a nenhuma pena seja dentro, seja fora da Igreja. Sua punição com frequência envolve a transferência para uma nova Paróquia, onde ninguém tem ciência de seus crimes do passado e onde o pedófilo tem liberdade para continuar praticando seu vício.

Esse último episódio que envolve o arcebispo de Olinda e Recife e a excomunhão das pessoas responsáveis pelo aborto em uma menina de 9 anos estuprada pelo padrasto fornece outra prova disso. Sob o nome de “ética” a Igreja, o próprio Vaticano, opôs-se ao aborto, alegando preservação da vida humana. Oras, exatamente para a preservação da vida humana, da menina violentada, que esse aborto foi recomendado e autorizado.

Se a excomunhão não ocorreu, se a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil resolveu voltar atrás desse processo, revogando um édito do arcebispo e do próprio Vaticano, isso não foi feito por piedade, mas porque o assunto chamou a atenção pública, e a Igreja já está com a imagem abalada. Ironicamente, a CNBB emitiu nota condenando o estupro, mas jamais cogitou excomungar o padastro estuprador. Aparentemente o estupro fere a ética mas não os dogmas da fé.

Para o dogma, o estupro não é o pecado, o pecado está em salvar a vida da mãe e livrá-la de uma gravidez indesejada; o pecado não é proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a distribuição de preservativos que “estimularão” as pessoas a praticarem sexo; o problema não está em nascer com malformação de algum órgão vital, o pecado é utilizar células congeladas e insensíveis para tentar alcançar a cura; não está em vegetar em cima de uma cama por décadas sem qualquer processo mental e sem nenhuma dignidade, o pecado está em desligar os aparelhos que mantêm o paciente preso a esse mundo.

A Igreja se coloca sempre em favor da preservação da vida e evoca sempre o mandamento não matarás, mas é óbvio que isso é apenas um argumento de retórica. Essa mesma preocupação incondicional com a preservação da vida e com o mandamento do Senhor não encontra eco quando se trata de outras vidas que não a humana e com frequência demonstra não se aplicar, tampouco, à vida humana.

O problema se encontra onde dogma e fé se confundem com ética e racionalismo.
As opiniões de qualquer grupo religioso são pertinentes apenas às pessoas que partilham aquele mesmo sistema de crenças. Para todas as demais pessoas, essas opiniões podem ser escutadas, à título de conselho ou por mera curiosidade, mas elas não devem pesar nas decisões finais aplicadas a toda a coletividade.

Fonte: ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais



perfil greif
Sérgio Greif -  sergio_greif@yahoo.com
Biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade, docente da MBA em Gestão Ambiental da Universidade de São Caetano do Sul, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas ações civis publicas e audiências públicas em defesa dos direitos animais. Co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável", além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas. Realiza palestras nesse mesmo tema. Membro fundador da Sociedade Vegana.

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