quinta-feira, 21 de novembro de 2013


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Folha de S. Paulo publica trecho da resposta de Fabio Chaves (Vista-se) a Silvia Ortiz e João Antonio Henriques, representantes do Instituto Royal

Publicado em 12 de novembro de 2013 em Artigos, Destaque, Notícias

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A Folha de S. Paulo publicou apenas um pequeno trecho (leia aqui) do artigo enviado em resposta ao texto “A ciência em perigo”, dos representantes do Instituto Royal, publicado em 11/11. Abaixo, a versão completa. A versão que gostaríamos que tivesse sido publicada é um pouco mais resumida, respeitando os limites estabelecidos pelo jornal. Se você quer ler a versão encaminhada à Folha, menor que a que está abaixo, acesse este PDF.
Nota à Folha de S. Paulo sobre o texto publicado e assinado por representantes do Instituto Royal
Cientistas reacionários: a ciência em perigo?
No dia 11 de novembro de 2013, a Folha de S. Paulo publicou um artigo assinado por Silvia Ortiz (gerente geral) e João Henriques (gerente científico) do Instituto Royal (veja aqui). No texto, os dois condenam de forma apaixonada a atuação dos ativistas e manifestantes que libertou ao menos 178 cães da raça beagle e alguns coelhos que eram usados para testes na instituição.
Apelando para o lado emocional – que eles nunca demonstraram até então -, convidaram os leitores a se colocarem no lugar do Instituto Royal: “É como se acusassem você, leitor, de maus-tratos com seus animais domésticos, invadissem e depredassem sua casa e os levassem embora, sem nenhuma prova concreta ou amparo legal. Como você se sentiria a respeito?” – diz o texto.
Fica claro o desespero pelo apoio da sociedade que, a princípio, é totalmente contra o uso de animais para experiências cruéis e que, quase sempre, pouco ou nenhum resultado trazem. A expressão “maus-tratos” vem a calhar para que possamos entender o que se passa na cabeça de Silvia e João quando afirmam que não havia maus-tratos. Para os cientistas que apoiam a vivissecção, um cãozinho com água, comida e ambiente minimamente  limpo não sofre maus-tratos mesmo que seja obrigado a ingerir doses cada vez maiores de agrotóxicos, corrosivos ou fármacos até que ele morra. A definição de maus-tratos dentro de um laboratório de experimentação animal passa longe do sendo comum, humano.
Desta forma, os ativistas pelos Direitos Animais entendem que sim, havia maus-tratos no Instituto Royal. A legislação brasileira não define ainda muito bem o que caracteriza maus-tratos, por isso, o termo não é bem usado na maioria das vezes, especialmente quando há conflito de interesses como no caso de Silvia e João.
O texto dos representantes do Instituto Royal afirma ainda que a lisura do trabalho exercido pela instituição foi atestada em todas as esferas públicas. Não foi. Investigações continuam sendo feitas pelo Ministério Público, pela Comissão Externa da Câmara, formada por deputados federais e por outros órgãos públicos. Apenas órgãos como o CONCEA (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal), sabidamente formados por cientistas vivisseccionistas, correram para apoiar o Instituto Royal, inclusive em programas de televisão, atuando como verdadeiros advogados da instituição.
As informações desencontradas geradas pelos representantes do Instituto Royal não são exatamente uma novidade. No início de toda essa discussão, apenas para citar um caso de desinformação, Silvia Ortiz deu várias entrevistas a grandes veículos de comunicação afirmando que a ação dos ativistas era criminosa e que sua instituição seguia rigorosamente todas as regras impostas pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), alegando também que o Instituto Royal era fiscalizado por este órgão. Dias depois, a ANVISA emitiu uma nota desmentindo em rede nacional a representante do Instituto Royal. No texto, a ANVISA afirma que não é sua função criar regras ou fiscalizar o cumprimento delas em relação ao uso de animais em experimentos científicos. Desde então, o Instituo Royal passou a citar o CONCEA como regulador e a convocar a instituição para partir em sua defesa.
Ora, se Silvia Ortiz declaradamente não sabia qual era o órgão regulador e tampouco quem fiscalizava sua instituição, fica evidente que não havia qualquer fiscalização. Em outras palavras, o Instituto Royal fazia o que queria com os animais. Há documentos que estão com a Comissão Externa da Câmara que mostram que o Instituo Royal pagava a uma empresa terceirizada para queimar toneladas de carcaças de animais. Para somar à confusão, o Instituto Royal foi credenciado pelo CONCEA apenas em setembro de 2013, anos depois de ter inciado suas atividades com animais.
Alguma dúvida ainda que o Instituto Royal não era fiscalizado pelo governo mesmo tendo recebido mais de R$ 5 milhões do dinheiro público através do FINEP (Agência Brasileira da Inovação)?. Este repasse, inclusive, está sendo investigado por órgãos competentes.
Reacionários são pessoas que gostam das coisas como elas estão, que são desfavoráveis à mudanças sociais e políticas. O caso do Instituto Royal mostra dia após dia que o Brasil não aceita que animais sejam tratados como instrumentos de laboratório, assim como são os tubos de ensaio ou as tesouras. Esta ideia só vai crescer, é impossível parar esta mudança de conceito que urge.
Há 126 anos, a lei brasileira permitia que pessoas fossem escravizadas por outras e usadas para o trabalho. Latifundiários e outros detentores de poder eram ferozmente contra a libertação dos escravos. Alegavam que, sem eles, a economia seria prejudicada e, por vezes, usavam comparações esdrúxulas como a que encontramos nas palavras de Silvia e João: “É como se acusassem você, leitor, de maus-tratos com seus animais domésticos, invadissem e depredassem sua casa e os levassem embora (…)”. Nenhum leitor que respeite e ame seus animais domésticos os faz ingerir substâncias químicas ou arranca seus dentes para experiências odontológicas. Assim, caros leitores, mantenham-se calmos, suas casas não serão chamadas de “Instituto Royal”.
O que Silvia e João tentaram fazer é o que conhecemos como “disseminação da cultura do medo”, como se ativistas pelos Direitos Animais fossem a favor da violência e como se a ciência dependesse exclusivamente de testes em animais para evoluir.
Ao contrário do que afirma o texto de Silvia e João, a ciência não está em perigo. O que está em perigo, de fato, são as experimentações com animais. Periga que elas acabem muito antes do que o mais entusiasta dos ativistas pudesse imaginar. E isso não tem absolutamente nada a ver com violência a cientistas, tem a ver com a demanda social pelos animais fora dos laboratórios que vem crescendo no mundo todo.
Fabio Chaves, 31, é infoativista e fundador do portal de notícias Vista-se, especializado em conteúdo relacionado ao veganismo e aos Direitos Animais.