domingo, 17 de novembro de 2013

A TRANSIÇÃO HUMANA PARA A CIVILIZAÇÃO DO III MILENIO

Educação Humanitária

Recentemente tive a oportunidade de assistir a uma interessante palestra do professor Vinicius Signorelli, da Sangari do Brasil, onde importantes questões educacionais foram abordadas. Em sua exposição, o professor tratou de algumas problemáticas do ensino que tive a oportunidade de experimentar na qualidade de estudante e, mais tarde, na qualidade de educador.

Um dos pontos mais importantes, ao meu ver, era a questão da necessidade de transmissão de todo um conteúdo programático em determinado espaço de tempo. Meu professor de química do ginásio provavelmente tinha a noção de que não adiantaria tentar nos ensinar sobre ligações químicas logo na segunda aula, após nos haver ensinado sobre os modelos atômicos, porque não havíamos ainda compreendido aquela primeira parte da disciplina. E antes que pudéssemos compreender essa segunda aula, já estávamos aprendendo sobre funções inorgânicas, cálculo estequiométrico ou massa atômica. É possível que eu só tenha começado a entender o conceito de átomos nas duas últimas aulas do ano, que eram sobre química orgânica.

O mesmo problema tive de enfrentar em outra posição, quando me tornei professor em um cursinho, porque todo o conteúdo de 2º grau de biologia precisava ser transmitido aos estudantes em um ano, estivessem eles entendendo a matéria anterior ou não. Por mais que as aulas fossem transmitidas em um tom informal e houvesse um plantão para tirada de dúvidas, o conteúdo da disciplina precisava ser decorado, não apenas compreendido. E afinal, não podemos explicar porque que um estudante de segundo grau que prestará vestibular para a faculdade de letras precisa saber sobre a função do retículo endoplasmático ou calcular quais as forças atuando sobre um carrinho correndo sobre uma mesa. Porque mesmo que ele decore essas coisas para passar no vestibular, é provável que logo as esqueça.

O ensino de ciências deveria incitar a curiosidade científica dos estudantes, e não apenas fazê-los decorar tabelas e esquemas. Entender o que precisa ser aprendido só acontecerá quando o aluno despertar interesse pelo assunto e conseguir realizar conexões entre os diferentes fenômenos. A ciência se encontra de tal forma desvinculada dos outros campos de conhecimento, distante de nossa realidade, que a maioria de nós se sente incapaz de associar os eventos cotidianos à pratica de aprendizado de ciências.

Mais do que receber toda uma carga de conhecimentos que ele provavelmente não é capaz de absorver, o estudante precisa ter a ciência em seu cotidiano, precisa ser capaz de interpretar sua realidade à luz do raciocínio científico. E, mais do que isso, o ensino de ciência não deve se limitar ao seu campo de atuação, mas se estender a outras áreas.

É fato que o conteúdo transmitido pelo educador interfere no cotidiano do estudante. É desejável que essa interferência ocorra, mas somente quando ela for positiva. A história mostra que a ciência pode ser usada tanto para bons quanto para maus fins. O uso, a inclinação que se dará para ela, em muito depende da educação que o cientista em formação recebe, não apenas no que se refere às questões diretamente abordadas enquanto conteúdo explícito, mas também todo o conteúdo transmitido mediante o currículo oculto.

E por "currículo oculto" entendamos todos os valores que são transmitidos aos estudantes, impregnados no conteúdo da disciplina ou na forma como esse lhes é transmitido. Esses valores acabam por moldar o caráter dos estudantes, influenciando suas atitudes para com seus colegas, sua família e a comunidade.

Muitas vezes o currículo oculto passa despercebido aos olhos do professor. Uma frase mal colocada ou uma informação omitida e aquela simples aula sobre evolução darwinista acaba inspirando sentimentos racistas. Em outras ocasiões, é nítido que o currículo oculto é propositalmente inserido dentro do contexto, com vistas a transmitir uma mensagem subliminar. E o caso da utilização didática de animais, onde a mensagem de que animais são recursos ou de que tudo é permitido em nome da ciência parece ser ainda mais importante do que aprender anatomia interna da minhoca.
Cabe ao educador estar atento, porque mais do que ciência, ele está ensinando valores; Cabe à sociedade estar atenta, porque mais do que formar possíveis cientistas, as escolas formam cidadãos. Nesse contexto cabe falar sobre a "educação humanitária".

A educação humanitária pode ser definida como a educação que incentiva o respeito e a ética para com todos os seres, no contexto do ensino de ciências. Ela não visa apenas a transmissão do conhecimento contido no conteúdo programático, mas também o desenvolvimento de atitudes positivas em relação ás pessoas, aos demais animais e ao meio ambiente.

Há uma ligação direta entre o respeito aos seres humanos e o respeito aos demais animais e ao meio ambiente. É fatídico que o currículo oculto atualmente traga a mensagem de que os animais são recursos, objetos descartáveis, porque uma mensagem que talvez escape a essa programação é a de que seres humanos também são objetos. Não há como evitar que uma coisa leve à outra.

Estudos revelam uma correlação entre a prática de desrespeito contra animais na infância e a prática de crimes hediondos na idade adulta. Crianças que experimentam a violência doméstica com maior freqüência se tornam adultos insensíveis. De igual maneira, crianças que vivenciam a violência contra animais tendem a perder a capacidade de sentir compaixão e passam a desrespeitar outras formas de vida.

No "currículo oculto" das instituições de 2º grau e principalmente nas universidades, há práticas voltadas especificamente para dessensibilizar os estudantes. Por exemplo, estudantes são induzidos a realizar procedimentos em animais agonizando, de forma que se tornem menos sensíveis ao seu sofrimento. Dessa forma, espera-se que isso os capacite a terem "sangue frio" para tratar pacientes humanos agonizando.

O grande problema dessa prática é quando ela dá certo, porque é nítido que há um problema quando um estudante presencia um cão agonizando e não se compadece. O estudante de medicina que vê esse animal como um objeto, como um boneco para realização de procedimentos desnecessários, dificilmente terá uma visão diferente de seus pacientes. Não é a toa que o cenário que encontramos é de uma medicina desumanizada. O paciente que acorre a um consultório particular recebe, na maioria das vezes, um tratamento com alguma dignidade, afinal, ele é um cliente; mas o paciente que acorre a um hospital público não tem o mesmo tratamento, porque o médico o trata conforme aprendeu a tratar.

A educação humanitária, por outro lado, visa formar mais do que médicos e cientistas. Ela visa formar cidadãos responsáveis, éticos, compassivos, sensíveis. Porque é óbvio que um médico que escute seu paciente e de fato esteja preocupado com sua saúde é melhor profissional do que um médico que apenas exercite seu ego fazendo uso de um poder exercido em caráter temporário.

Mais do que um movimento de "proteção às cobaias", esse é um movimento pela qualidade no ensino das ciências, da biologia, da medicina veterinária e humana. E de fato, diversos estudos demonstram que estudantes aprendem melhor através dessas metodologias, porque elas enfocam o conteúdo das disciplinas, não distraindo o estudante com a preocupação de se o animal vai acordar, se ele ainda está respirando, se ele vai morrer etc. Nada ali confronta sua ética ou compaixão, não há conflito, e por isso mesmo, o estudante não tem outra preocupação senão aprender.

As metodologias utilizadas na educação humanitária são as mais variadas, sendo que todas procuram desvincular o estudante da visão de que animais são recursos. Não necessitamos de cães, ratos ou coelhos para entendermos como funciona o sistema circulatório, para isso podemos utilizar atlas anatômicos, livros textos, softwares educacionais, simulações computadorizadas, slide-shows, manequins anatômicos, vídeos, cadáveres de animais obtidos de forma ética, podemos utilizar recursos que permitam que os estudantes estudem o sistema circulatório em seus próprios colegas, de forma consentida, amigável e interativa. Enfim, as possibilidades são imensas e não há porque limitá-las a uma única metodologia, tão discutível e polêmica.

O processo de aprendizado de ciências não precisa ser esse pesadelo desumano, onde as convicções éticas do estudante são a todo momento agredidas pela imposição do conceito de que isso é necessário ou imprescindível, para sua formação. A coação para que os estudantes participem dessas práticas de fato em nada contribui para seu futuro, pelo contrário, os torna sujeitos menos sensíveis e questionadores ou leva muitos à evasão para outros cursos. Com isso a ciência perde, porque deixa de atrair pessoa sensíveis e questionadoras.

A educação humanitária já é praticada em países europeus e nos EUA há muitos anos e não há porque não implementá-la também no Brasil. Dela não se beneficiam apenas aqueles que tem afinidade pelos animais, mas também o indivíduo e a sociedade.


perfil greif
Sérgio Greif -  sergio_greif@yahoo.com
Biólogo formado pela UNICAMP, mestre em Alimentos e Nutrição com tese em nutrição vegetariana pela mesma universidade, docente da MBA em Gestão Ambiental da Universidade de São Caetano do Sul, ativista pelos direitos animais, vegano desde 1998, consultor em diversas ações civis publicas e audiências públicas em defesa dos direitos animais. Co-autor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo" e autor de "Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável", além de diversos artigos e ensaios referentes à nutrição vegetariana, ao modo de vida vegano, aos direitos ambientais, à bioética, à experimentação animal, aos métodos substitutivos ao uso de animais na pesquisa e na educação e aos impactos da pecuária ao meio ambiente, entre outros temas. Realiza palestras nesse mesmo tema. Membro fundador da Sociedade Vegana.