sábado, 4 de outubro de 2014

40 DIAS NO CENTRO DE CONTROLE DE ZOONOSE (CCZ) DE SÃO PAULO

compartilhou a foto dela.
 
 
 
 
 
 
 
 
Uma Tempestade se sentindo tristeza imensa em São Paulo
 
RELATO DE UM CASO VERÍDICO:

Werner J. Payne
CCZ o horror, a insensibilidade, o descaso.
Sou médico veterinário e ligado a várias entidades de proteção animal. Passei 40 dias dentro daquele inferno onde reina a insensibilidade excluídas raras pessoas com coração), realizando a eutanásia com medicação injetável por conta do Projeto de Reestruturação do CCz implantado por nós, protetores. Todos me questionavam a respeito dos meus sentimentos, se eu estava bem , como eu me sentia sacrificando tantos cães todos os dias, alguns doentes, outros sadios e até com roupas e lacinhos. Chegamos a eutanasiar 212 em 3 horas. A eutanásia não estava acabando comigo. O que realmente estava me corroendo era a indiferença a frieza, a proibição de implantarmos os nossos módulos de castração , educação e doação. Acima de tudo a não permissão para realizarmos a limpeza nos canis de forma mais adequada, pois os animais vivem dentro das próprias fezes durante 23 horas e 50 minutos do dia (os 10 minutos que restam é o tempo que ele é retirado do canil para a limpeza, isto quando a ela não é feita com ele lá dentro). Lá vi cães passarem 10 dias no canil com a mesma guia e corrente com a qual foram capturados, animais de grande porte deitados em cima de um estrado onde cabe apenas a metade do corpo, outros apresentando miasses ( bicheiras ) sem nenhum tipo de tratamento e permanecendo no canil pelo simples fato de ser um agressor (e os bichos comendo ele vivo!), cães com a mandíbula fraturada, cães que morderam porque alguém pisou no seu rabo e passa a ser carimbado como agressor. Sem duvida nenhuma após 10 "lindos" dias ele se torna um fera, pois a cada dia ele é retirado do canil a força, sendo puxado e enforcado com aquela corda esquisita em um cano. Ele sente medo e aquele sujeito do outro lado que segura o cambão também esta com medo; por isso ele aperta ainda mais o laço. O cão também sente com falta de ar e tenta se defender mordendo a ponta do cambão que é de ferro. Podia ouvir os dentes deles quebrando, via suas bocas sangrando. E do outro lado a vitoria, "Morde seu trouxa, assim você vai ficar banguela", eram esses os dizeres de alguns captores. E os responsáveis apenas olhando... O que me machucava era a impotência diante de tantos erros facilmente resolvidos. O que estava me corroendo era a covardia daqueles que podiam modificar porém não tinham coragem.
Conheci um pastor alemão de aproximadamente 9 meses, dito "agressor", ficava no canil 45 e seu registro era 4098. Logo quando trocamos os olhares me aproximei e passei a mão em sua cabeça. Ele ficou tão contente (era um agressor), balançou o rabo se contorcendo todo de alegria. Naquele canil imundo, pisava na corrente e em suas próprias fezes de horas atrás. Chamei um funcionário para abrir o cadeado e tirei a corrente daquele cão agressor que saltava de felicidade pôr alguém estar passando a mão em sua cabeça. Ele sabia o que era afeto. Canil 45: um agressor. Eu visitava aquele cão todos os dias, cheguei a tirá-lo do canil e brincar com aquele agressor. Pedi que o liberassem para que eu pudesse leva-lo , afinal eu precisava de um cão para tomar conta de casa, mesmo que agressivo. Sim, foi amor a primeira vista de ambas as partes. Quanto ódio eu sentia diante da impotência, da falta de interesse daquelas pessoas frias. Eu chorava ao ver aquele pastor carinhoso e brincalhão deitado num canil imundo. Troquei sua água após limpar o box e o coitado estava morto de sede. Tomou pelo menos 4 vasilhas de água!
Pedia e pedia varias vezes e para muitas pessoas que me liberassem o cão. Tudo em vão. No vigésimo dia de sua estadia implorei ao plantonista pela sua liberação. Ainda ouvi que pegar um cão da adoção, que seria melhor pois o meu amigo seria sacrificado. Após 20 dias ele seria sacrificado? Indaguei esclarecendo que ele era manso e ouvi como resposta que sim, que eles sabiam que era manso mas não poderiam liberar.... Era o fim do cão do Canil 45.
Dentre tantas outras histórias da indiferença e descaso, também acompanhei a de um dogue alemão gigantesco, caçando um pouco de espaço dentro do canil que mais parecia um sapato apertado. Mais uma vez chamei a funcionaria responsável e lhe informei que aquele cão tinha um problema, ela olhou e disse: "sim, acho que ele tem um problema. Vou pegar a ficha dele.", respondi quase gritando para que pudesse ser entendido que o problema dele bastava que ela olhasse com um pouco mais de sentimento e veria que era apenas a falta de espaço! Ela virou as costas puxando o ombro para cima, eram apenas 10 dias de sofrimento, e o que importava, afinal não era ela que sofria. Apenas 10 dias de sofrimento... Me deparei mais uma vez com o maior dos problemas: este tipo de pensamento é o que reina. Descaso... Encontrava animais sendo deixados na portaria sem ao menos tentar orientar o dono: "ah, é só assinar que nos faremos nosso serviço.".
Nos poucos casos que conseguimos flagrar deixando o cão, todos retornaram para casa, fosse em busca de tratamento que não sabiam da existência, fosse pelo simples fato de um esclarecimento. Coisas simples do tipo briga de família, um tumor de mama, um probleminha de pele.
Um dos casos no qual interferimos era uma cadela doberman com um tumor de mama. Perguntamos ao proprietário se caso houvesse solução se ele gostaria de tentar. O rapaz não titubeou e procurou logo esclarecimento. Disse que faria a cirurgia na minha clinica e ele aceitou na hora. Ao levá-la a clínica, em um papo fui informado de que quando voltou ao guichê para dizer que não ia mais deixar a cadela, o funcionário que havia lhe atendido disse para não nos dar atenção e já que havia ido deixá-la que então assinasse, pois quanto mais cães mortos menor o risco de raiva. Quanta besteira. Creio que só podemos controlar a raiva reduzindo o numero de cães de tal forma que permita o seu total controle e isto somente será possível mediante o controle populacional. Não adianta matar, exterminar. Durante 30 anos isto foi feito, ou seja, desde o milênio passado, o século passado, e já é há tanto tempo que mostra seus resultados: NÃO SOLUCIONA O PROBLEMA!
É inconcebível que os responsáveis e capazes de mudar este quadro não entendam. Vivemos num novo século, somos humanos, capazes de procurar novos métodos mediante o uso de nossa inteligência. Inteligência???
Esta lista mostra os animais que são mortos nos CCZs por dia, por mês... Lendo a descrição dos bichinhos que esperam pela morte, podemos ter uma noção maior da crueldade que é um Centro de Zoonoses.
CÃES NO CCZ DE DIADEMA EM 13 NOVEMBRO/04 MACHOS ADULTOS (TOTAL 20), SENDO:
1 mest. boxer marrom, magro, tam. médio;
1 mest. bem de longe, de pit bull, preto, tam. médio;
1 mest. pastoreiro, peludão, marrom claro, tam. grande;
1 pit bull legítimo, marrom, cego de 1 olho, agressivo c/cães, tam. grande;
1 husky legítimo, cinza, tam. médio (o que está todo machucado);
1 mest. rottweiller, preto, gordo, tam. grande;
1 mest. poodle, bege claro, tam. Médio (parece o Benji);
1 mest. poodle, bege claro, tam. Médio (maior que o parecido c/o Benji); (estes dois são muito parecidos)
1 srd branco c/algumas pintas pretas (tem restos de Lepecid pelo corpo – agora não está apoiando a pata traseira esquerda no chão);
1 srd cinza escuro, tam. médio, magro (que foi atacado pelo pit bull);
10 srd´s sem alguma característica específica.
FÊMEAS ADULTAS (TOTAL 26), SENDO:
1 poodle legítima, preta, pequena;
1 poodle legítima, branca, tam. médio (está c/muito pêlo nos olhos);
1 mest. poodle, preta, tam. médio, porém menor que a branca;
1 srd peludinha, branca com manchas marrom claro, tam. médio (fica sempre naquele compartimento de cimento);
1 srd bege, tam. Médio;
1 srd bege e preta, tam. médio, c/coleira vermelha;
1 mest. de dobbermann, preta, grande;
1 mest. de pastor belga, preta, gorda, orelhas em pé, tam. grande;
1 srd preta, pequena, pêlo liso e curto (parece que é filhote...);
1 srd cinza escuro, com roupinha, magrela, tam. médio;
1 mest. poodle, preta, tam. médio;
1 srd preta, mest. pequinês, pequena (é prognata – dentes de baixo para fora);
12 srd´s sem alguma característica específica.
1 mest. de poodle branca, tam. médio, pescoço machucado pela coleira que estava grudada, que está na solitária com 5 filhotes dela;
1 srd mest. de pincher, preta, pequena, dentuça, que está com sarna inclusive em torno dos olhos, que está na solitária, dentro de uma caixa, com 1 filhote dela.
FILHOTES (TOTAL 12), SENDO:
5 filhotes da mest. de poodle branca que está com o pescoço machucado, na solitária;
1 filhote da mest. de pincher preta que está com sarna, na solitária;
5 filhotes bem pequenos, que estão na cela grande (2 brancos, 1 preto e branco, 2 pretinhos); 1 filhote pouco maior, pretinho, com coleira preta, que está na cela grande;
1 srd macho adulto, porém pequeno, que está na cela junto com filhotes porque está em tratamento.
Existe um projeto de Lei número 1.376/2003 que determina o controle de cães e gatos por esterilização, mas ele ainda não foi aprovado. Vamos pressionar!